NOSSAS ENTREVISTAS

Tema: Odontologia aliada ao tratamento do câncer

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Olga Goulart – O suporte de um cirurgião-dentista no tratamento de pacientes oncológicos é hoje algo fundamental. Como procedimentos de quimioterapia, radioterapia de cabeça e pescoço e transplantados de medula óssea geralmente baixam as defesas do organismo de pacientes com câncer, podem ocorrer complicações na cavidade bucal e é nessa hora que entra em cena o profissional da odontologia, responsável em amenizar essas complicações através de tratamento preventivo e curativo. Para esclarecer um pouco melhor sobre o assunto, quem conversa conosco é a odontologista, Doutora Marta Jones, ela atua como clínica geral, laserterapêuta e esta cursando especialização em implantodontia. Doutora, explica para os nossos ouvintes como é o tratamento odontológico e de que maneira ele pode ajudar o paciente com câncer.
Marta Jones – Hoje o câncer atinge milhares de pessoas e é um tratamento que deve ser feito com uma equipe multiprofissional de forma a oferecer uma melhor qualidade de vida para esse paciente. O tratamento odontológico ele vai entrar como aliado ao tratamento oncológico. Num primeiro momento, no primeiro contato do dentista com o paciente com CA, o dentista oncológico vai obter informações gerais sobre esse paciente, buscando dados pessoais e histórico familiar oncológico, o tipo de tumor que esse paciente apresenta, o histórico de quimioterapia ou radioterapia de cabeça e pescoço anteriormente, caso esse paciente já tenha passado por algum tratamento oncológico e se esse paciente também apresentou mucosite oral durante o tratamento. Eu vou estar falando um pouquinho mais sobre algumas complicações bucais, quais foram os tipos de tratamento já realizados para o alívio da mucosite oral, avaliação de exames complementares, exame clínico e de acordo com o tratamento adequado para este tipo de paciente. É importante a gente explicar o tratamento proposto para o paciente, como por exemplo a laserterapia que vai estar ajudando agente neste processo de mucosite oral e das novas lesões que possivelmente podem aparecer na boca e vem demonstrando muitos benefícios para estes pacientes com CA. Após exame clínico e físico, o cirurgião-dentista ele vai definir o tratamento de adequação do meio bucal, como por exemplo, extrações dentárias, tratamento periodontal, restaurações ou até mesmo troca de restaurações, a fim de evitar maiores danos bucais e sistêmicos durante e após o tratamento oncológico.

Olga Goulart – Em que momento o paciente oncológico deve se consultar com um profissional da área de saúde bucal?
Marta Jones – Sempre que possível, o ideal é que esse paciente ele consulte um cirurgião-dentista capacitado ou um centro especializado antes de iniciar o tratamento de quimioterapia e radioterapia de cabeça e pescoço. É bom também que o médico tenha essa visão da importância de um cirurgião dentista nessa equipe multiprofissional, mas importante dizer que apesar da importância do dentista nessa equipe multiprofissional, o tratamento odontológico ele não deve atrapalhar o andamento do tratamento oncológico, o dentista sempre deve estar constantemente em comunicação com a equipe médica responsável, mas frisando que sempre que possível fazer essa adequação do meio bucal previamente ao tratamento oncológico.

Olga Goulart – Quais são as complicações doutora, as complicações odontológicas mais comuns em pacientes oncológicos?
Marta Jones – Ocorrem diversas complicações, lesões bucais inflamatórias que vão acabar, as vezes, até atrapalhando o curso desse tratamento oncológico que esse paciente precisa fazer, no caso de radioterapia de cabeça e pescoço e quimioterapia, dentre elas temos a mucosite oral, que ela consiste em um processo inflamatório que exibe alteração na mucosa bucal decorrente da ação fitotóxica de alguns agentes quimioterápicos, não são todos os quimioterápicos que vão causar essa mucosite oral, e da radiação ionizante na região de cabeça e pescoço, caso o paciente tenha câncer nessa região. Esse processo também pode atingir o trato esofágico e gastrointestinal, no caso de úlceras na mucosa. A base de dados, pra gente ter uma noção do quanto que essa mucosite oral acaba comprometendo esses pacientes, estima-se que cerca de 60 e 80% desses pacientes sobre transplantes de células-tronco hematopoiéticas, que são os pacientes que vão fazer transplante de medula óssea, 20 a 40% sob os pacientes que fazem a quimioterapia convencional e 100% dos pacientes sob radioterapia de cabeça  e pescoço vão estar desenvolvendo mucosite oral. Dentre outras lesões infecciosas a gente pode também estar falando sobre a candidíase oral, herpes vírus e cárie por radiação. Além dessas complicações o paciente onco-hematológico ele pode apresentar também e se desenvolver a osteorradionecrose devido a radiação ionizante, então é importante a gente frisar que é importante a gente remover qualquer foco de infecção ou caso o paciente precise fazer tratamento endodôntico ou até mesmo extrações dentárias para estar evitando essa complicação. Osteonecrose, trismo que é a dificuldade do paciente abrir a boca, ulcerações salivares, xerostomia e sensação de boca seca, dor, disfagia que é a dificuldade em deglutir os alimentos, disgeusia quando os pacientes têm alterações no paladar e da sensibilidade dentinária neuroplasticidade e radiodermatite, entre outras complicações que esses pacientes também podem apresentar.

Olga Goulart – Quais as opções de tratamentos disponíveis na odontologia para ajudar os pacientes com câncer?
Marta Jones – Primeiro ponto é a orientação de higiene bucal, como a mucosa bucal desses pacientes encontra-se bastante sensível é importante fazer uma higienização com cuidado, com muita cautela, além disso é importante ter o controle de bactérias presentes na boca para não agravar possíveis agressões bucais causadas pela radioterapia e quimioterapia. A gente orienta também a salivação e deglutição, já que esses pacientes vão ser comprometidos nesse sentido, então devido às alterações salivares causadas pela radioterapia na região de cabeça e pescoço são indicados cuidados para amenizar alguns desconfortos, como por exemplo, a gente sempre indica um chá de camomila, que seja frio ou gelado para alívio de dor, caso o paciente venha a apresentar mucosite oral, a gente indica também saliva artificial, ou mascar chiclete sem açúcar e água com sabor para estar estimulando a salivação desses pacientes. No caso da boca e lábios secos são indicados cápsulas de vitamina E e gel bucal hidratante para também estar aliviando este desconforto. Caso o paciente apresente infecções oportunistas a gente indica a nistatina em solução, bochecho com clorexidina e bicarbonato para estar aliviando mais essa sensação de ardência quando o paciente acaba desenvolvendo a candidíase oral. Nesse momento a gente deve estar entrando em contato com a equipe médica a respeito que o paciente apresenta infecção fúngica para que ele entre com um antifúngico sistêmico para estar controlando também esse processo e, caso o paciente venha a desenvolver herpes viral, também estar entrando com um antiviral. Em relação à alimentação, é importante nutricionista nessa equipe multiprofissional também, então, a gente indica que esses pacientes eles devem evitar alimentos cítricos ou frutas cítricas e sucos dessas frutas, sempre estar evitando ácido para irritar menos as úlceras que podem vir a surgir na boca e uma dieta rica em proteínas e vitaminas, beber líquido durante as refeições para também estar facilitando a deglutição desses alimentos. Outro tratamento que a gente tem preconizado muito é a laserterapia que eu falei rapidamente em uma outra pergunta. O laser ele mostra-se muito eficaz no tratamento e na prevenção dessas lesões bucais, como por exemplo, a mucosite oral. Então caso o paciente apresente qualquer alteração na boca, tanto o paciente ou o responsável, deve entrar em contato imediatamente com o cirurgião-dentista para a gente estar revertendo essa situação.

Olga Goulart – Quais os benefícios do tratamento odontológico para os pacientes oncológicos?
Marta Jones – Esses pacientes terão uma melhora na qualidade de vida durante o tratamento oncológico que é o que gente prega, o que a gente preconiza, já que esse paciente ele vai ter um controle maior no surgimento de lesões bucais que poderão aparecer, menor dor devido a laserterapia já que o laser tem ação analgésica e anti-inflamatória, melhora na alimentação e consequentemente uma melhora no sistema imunológico desse paciente, já que a gente vai estar controlando essas infecções bucais que podem surgir.

Olga Goulart – Existe alguma situação em que o tratamento não seja indicado?
Marta Jones – Para tratamentos mais invasivos, vai depender muito da condição de saúde geral desse paciente. Então o cirurgião-dentista oncológico ele sempre deve estar mantendo contato com a equipe médica especializada, a fim de evitar e até mesmo de atrapalhar o andamento do tratamento oncológico. No caso da laser terapia a gente não aplica laser em regiões ou lesões que não se sabe o diagnóstico, isso aí é um pré-requisito, a gente não aplica laser numa lesão que não se sabe exatamente qual o diagnóstico, principalmente, de jeito nenhum, na verdade a gente deve aplicar laser em regiões tumorais, no caso especificamente de lesões de câncer na boca.

Olga Goulart – Quais são os riscos que a falta de higiene bucal pode oferecer ao paciente oncológico?
Marta Jones – A falta de higiene bucal pode agravar ainda mais o quadro clínico desse paciente, diminuindo a qualidade de vida durante o tratamento oncológico, devido ao agravamento das lesões e isso vai comprometer a alimentação e, consequentemente, esse paciente vai ter uma diminuição do sistema imunológico. Já é um paciente que já é comprometido imunologicamente e, caso ele não consiga ter uma melhor alimentação, vai ter um comprometimento maior nesse sentido. Tem casos que pacientes, eles podem vir a óbito devido a uma infecção secundária generalizada, devido a um agravamento de  infecção de uma mucosite, por exemplo.

Olga Goulart – Quais as recomendações básicas de higiene bucal que o paciente oncológico deve seguir?
Marta Jones – Esses pacientes devem estar escovando os dentes no mínimo três vezes ao dia, de manhã, de tarde e de noite, principalmente antes de dormir, essas escovas devem apresentar cerdas macias, para estar promovendo menor trauma na gengiva, o uso de fio dental a gente chama atenção que ele deve ser feito com muita cautela, com muito cuidado, porque o fio dental, usado de forma incorreta, pode traumatizar a gengiva e nessa região pode acabar desenvolvendo úlceras que vão estar comprometendo nessa parte também, além da dor, vai comprometer nessa parte de alimentação desse paciente, realizar bochechos apenas quando orientado pelo dentista, nunca deve estar fazendo bochecho com uma solução que contenha álcool, aplicar diariamente o flúor neutro, conforme a orientação também odontológica e estar utilizando também o protetor labial.

Olga Goulart – Existe algum tipo de capacitação ou treinamento para o cirurgião-dentista responsável pelo tratamento bucal de pessoas com câncer.
Marta Jones – É interessante que o dentista tenha uma capacitação ou que pelo menos ele tenha alguma vivência clínica e ambulatorial com esse perfil de paciente. São pacientes que demandam de um manejo odontológico mais específico e cauteloso e para o tratamento especificamente da laserterapia na prevenção e tratamento de mucosite oral,  o cirurgião-dentista tem que fazer o curso de capacitação e habilitação para tal execução. Então atender esses pacientes com CA exige do cirurgião-dentista um conhecimento a mais sobre a oncologia até para definir um plano de tratamento adequado e manter um diálogo com a equipe médica.

Olga Goulart – Para finalizar doutora, o tratamento odontológico para pacientes com câncer é um tratamento muito caro? É possível realizá-lo com plano de saúde ou mesmo dentro dos Sistema Único de Saúde?
Marta Jones – O valor do tratamento vai depender de quantas sessões serão necessárias, caso o paciente precise fazer a laserterapia. Tem pacientes que precisam fazer várias sessões de laser, então infelizmente acaba se tornando um tratamento um pouco mais caro, mas é importante dizer que o melhor tratamento é a prevenção. Sai mais barato para o paciente, para os planos de saúde e para o SUS, quando o paciente faz um tratamento preventivo, então, o custo maior seria caso o paciente precisasse ter um controle de uma infecção, caso ele viesse a ter, caso o paciente quisesse fazer alguma internação ou suspensão das sessões de quimioterapia e radioterapia. No caso o tratamento do laser é o tratamento curativo das lesões bucais, ele seria mais caro do que fazer um tratamento preventivo, além de promover uma melhor qualidade de vida e conforto para o paciente. Para os pacientes que têm plano de saúde, é necessário um relatório médico solicitando a necessidade de laserterapia, como prevenção de tratamento de mucosite oral e é necessário também o relatório também do cirurgião-dentista informando o planejamento das sessões de laserterapia e sua aplicabilidade. O paciente pode realizar o tratamento particular, mediante o reembolso do plano de saúde, seguindo os critérios administrativos específicos de cada operadora. Quanto ao SUS, o tratamento preventivo com laser de baixa potência já está aprovado pelo Ministério da Saúde, mas infelizmente não são todos os hospitais que oferecem esse tipo de tratamento, além disso seria necessário a presença de um cirurgião-dentista habilitado nesses hospitais para poder fazer a laserterapia nesses pacientes como um procedimento para estar evitando e prevenindo um possível surgimento de mucosite oral ou outras lesões bucais que podem estar comprometendo a qualidade de vida desses pacientes.

Olga Goulart – Ok, conversamos com a Odontologista Doutora Marta Jones. Doutora, muito obrigada e até a próxima.